06/03/2016

12 Testes de Avaliação da Linguagem para Crianças e Adultos

Hoje apresento-vos uma compilação dos testes de avaliação da linguagem que existem para o Português Europeu. É indiscutível a necessidade clínica de instrumentos precisos para caracterizar as competências do indivíduo e, dessa forma, definir e monitorizar a intervenção.
Apesar de existirem mais testes, os que aqui sugiro são aqueles que apresentam dados normativos para a população portuguesa - à excepção dos dois últimos.
Peço aos leitores que conheçam outros para os mencionar nos comentários.




Idades Tempo de aplicação Áreas e competências Normas
1. TALC 2:6 a 6 anos 30 a 45 minutos Semântica, morfossintaxe, pragmática
2. TICL 4 a 6 anos 45 minutos Léxico, mofossintaxe, memória auditiva, metapragmática Equivalências entre os Resultados Brutos obtidos nas 4 áreas e níveis de mestria
3. GOL-E 5:7 a 10 anos 30 minutos Semântica, morfossintaxe, fonologia resultados médios e distribuição percentílica por faixa etária
4. TL-ALPE 3 a 6 anos
Compreensão auditiva, expressão verbal oral, metalinguagem
5. ALO 4 a 9 anos
Léxico, sintaxe, fonologia
6. PALPA +5 anos até adultos variável Processamento fonológico; leitura e escrita; semântica Dados estatísticos por prova e em função dos diferentes grupos etários e níveis de escolaridade
7. TAS 7 aos 13:11 anos 30 minutos Relações sintagmáticas, campo lexical, sinonímia, antonímia, paronímia Resultados médios para cada prova e resultados médios totais por da faixa etária; distribuição percentílica por faixa etária
8. PLINC +40 anos 20 minutos Compreensão e expressão Valores médios de desempenho e tempo por faixa etária; resultados médios em função da escolaridade
9. BPF

Consciência fonológica
10. PARAFASIA Crianças e adultos variável Avaliação e e intervenção em perturbações da linguagem (afasia)
11. PEABODY 2:6 a 90 anos 10-20 minutos Aptidão verbal e vocabulário Resultados QI; tabela de normas por grupo etário; equivalências entre os resultados brutos e a idade-teste
12. REYNELL 15 meses a 7:6 anos 30-40 minutos Compreensão e expressão

02/03/2016

Aplicações (Apps) para Terapia da Fala

São inúmeras as aplicações que se podem usar em contexto de Terapia da Fala. As que não são dedicadas às nossas áreas de trabalho, podem bem ser aproveitadas. Em relação a outros países temos consideravelmente menos quantidade, sobretudo porque somos poucos. Ao seleccionarmos uma aplicação devemos ter em atenção se não é em Português do Brasil, uma vez que há variações que os nossos clientes não perceberão e poderão, eventualmente, ser contraproducentes.

Para além disso, as aplicações de comunicação aumentativa e alternativa tinham (e têm) uma grande limitação - muitas não têm uma fala sintetizada para o português europeu e, se têm, é de uma mulher ou homem, ambos adultos. Assim, devemos preferir aquelas que permitem a gravação de clipes de áudio, em detrimento da fala sintetizada - podemos pedira a voz emprestada a alguém!

Na minha prática uso o tablet de três formas diferentes: deixo a criança manipular a aplicação de forma mais ou menos independente; apenas para apresentação de estímulos visuais ou auditivos; com carácter de prescrição - para que o cliente use ou pratique em casa.

Tive o meu primeiro tablet em 2010 - o iPad (1st gen). Inicialmente usei-o com alguma regularidade mas deixou de ser muito prático, sobretudo por causa da limitação da língua; para além disso, em pouco tempo, deixou de ser compatível com novas aplicações. Actualmente tenho um Asus ZenPad 10, que corre o Android 5 (Lollipop). Se comprarem um equipamento com o propósito de ser usado na terapia, aconselho um tamanho de ecrã generoso - 10" é o ideal. Fica ainda o link para um artigo da ASHA.

Apresento-vos algumas aplicações da minha eleição, organizadas por área de intervenção. Peço aos leitores que conhecerem outras, que as sugiram nos comentários.

Articulação e fonologia
GameFono (versão experimental limitada) - Android
Falar a Brincar (gratuita) - Android
Palavras aos bocadinhos (versão experimental limitada) - Android | iOS
Sounds of speech (pago) - Android | iOS

Leitura e escrita
Aventura das palavras (gratuito) - Android

Competências pré-linguísticas
Talking Tom (versão gratuita com publicidade) - Android | iOS

Comunicação aumentativa e alternativa
TICO4Android (gratuito) - Android
Vox4All (versão experimental limitada) - Android | iOS
Sono Flex (versão experimental limitada) - iOS
MyTalk (versão experimental limitada) - Android | iOS
Grid Player (gratuito) - iOS
GoTalk Now (versão experimental limitada) - iOS


Fluência
DAF Professional (versão experimental limitada) - Android | iOS
Metronome Beats (versão gratuita com publicidade) - Android

Voz
OperaVox (versão gratuita limitada) - iOS

Outras
BabyPlayFace - Android | iOS
Toca Kitchen - Android | iOS
Toca Hair Salon - Android | iOS



24/02/2016

A música como estratégia na Terapia da Fala

São fundamentais todas as actividades que venham tornar a intervenção do terapeuta da fala mais lúdica, divertida e, acima de tudo, com significado para a criança. Algumas, sobejamente conhecidas, são aplicadas com muita frequência - são disso exemplo os jogos de tabuleiro ou outros que permitem tornar menos formais as tarefas que devem ser apresentadas às crianças.
Na selecção destas actividades incorremos, por vezes, no erro de tornar a sessão menos produtiva e, por isso, talvez eu seja tão pouco apologista e utilizador de jogos da glória, do peixinho e outros. Portanto, serão boas mas sempre na boa conta peso e medida. Momentos existem, com certeza, em que não temos outro remédio - a criança colabora menos, é muito pequena ou por outros motivos.
A necessidade de surgirem novas abordagens e contextos de intervenção é ainda maior em clientes que são acompanhados a longo prazo e, por vezes, com múltiplas terapias por semana. É bem conhecido o cansaço e saturação a que estes meninos e meninas chegam ao fim de algum tempo - é um facto.
Se me perguntarem: não tenho nenhum curso em terapia musical, nem coisa parecida. Mas tenho imaginação e, por acaso, toco guitarra portuguesa e viola. É mesmo disso que venho falar hoje. Ás vezes levo comigo um destes instrumentos para o gabinete e é sempre curioso, enquanto fazemos uma pausa, mostrá-los aos miúdos - querem sempre explorar e "tocar um bocado".

Ao longo dos anos fui criando algumas actividades. Não sei se são originais, mas nunca as vi apresentadas em lado nenhum, por isso, aqui vão.

-Xilofone: talvez tenha sido a primeira experiência. O meu xilofone é colorido e tem as notas musicais escritas. Durante a avaliação ou intervenção pode ser pedido à criança que reproduza uma sequência mais ou menos simples apresentada previamente por nós (memória auditiva e visual).


-Guitarra: este é talvez a ferramenta mais divertida de todas. A automatização de fonemas pressupõe o treino hierárquico, sendo que um deles deve ser o discurso dirigido - porque não a cantar? Podemos utilizar músicas simples acompanhadas à guitarra (eg. Atirei o pau ao gato, Papagaio loiro, etc). Para além disso podemos usar essas músicas com outros objectivos, como por exemplo, memória auditiva.

-Metrónomo: apesar de ser usado sobretudo nas perturbações da fluência (eg. gaguez), pode também ser usado noutras situações, como por exemplo em perturbações motoras da fala ou alterações da motricidade oral - algumas tarefas práticas passam pela repetição de unidades linguísticas (eg. sílabas) de uma forma ritmada, mais ou menos rápida. Uso a aplicação Metronome Beats.

Fica aqui o link de um Cancioneiro da Universidade do Minho com canções infantis portuguesas.

São algumas sugestões práticas para modificar as rotinas dos nossos meninos

16/09/2015

Revisão de material - Mix & Match, Tiger

Recentemente descobri que tinha aberto uma loja muito engraçada que já conhecia de outros países - a Tiger. Esta loja distingu-se por ter materiais exclusivos a preços bastante acessíveis, sempre com qualidade; é uma loja com produtos gerais, e não dirigidos à reabilitação. Se entrarmos na Tiger com olhos de terapeuta, conseguimos descobrir muitos materiais que podem ser utilizados.

Mix & Match é um pequeno livro que apresenta diversas personagens típicas, representando profissões e outros. Cada página divide-se em três que se podem misturar e criar personagem misturadas. Vêm, portanto, a quantidade de actividades que podem ser inventadas em torno do pequeno livro. É robusto, feito com páginas de cartão grosso e a lombada é feita com argolas.

 

A título de exemplo, podemos pedir à criança para:
-Identificar as personagens: deve, então, seleccionar as partes do livro para formar a enfermeira, o pirata ou outros;
-Identificar o erro: qual parte do corpo não faz parte, ou não combina;
-Descrição dos atributos: como está vestida, caracetrísticas da face ou corpo;
-Adequar o personagem para determinadas condições: saír à rua, trabalhar, dormir, ir à praia.

São apenas algumas das muitas actividades que, mais uma vez, apenas dependem da nossa imaginação de terapeuta!

23/08/2015

Pós-graduação em Terapia Assistida por Animais: Cães e Cavalos


Apesar de não ser nova, a temática da terapia assistida por animais continua a ser explorada e, acima de tudo, formalizada. Deixa, cada vez mais, de ser a intervenção feita por pessoas não diferenciadas para passar a ser uma estratégia de intervenção coadjuvante às abordagens tradicionais.

Há cerca de dois anos foi-me lançado o repto pela querida amiga e colega Drª Adelaide Dias e pelo instituto CRIAP, de criar uma pós-graduação que garantisse a capacitação de profissionais da saúde juntamente com aqueles que existem de melhor em cada área. Aceitei de imediato.

Hoje, estamos em vésperas de fechar as inscrições para a primeira edição daquela que pretende ser uma pós-graduação inovadora nacional e internacionalmente. É composta por uma parte equina e outra canina, reunindo os especialistas das diversas áreas de formação com conhecimento e prática clínica. 
Para a componente canina os formandos poderão trazer o seu próprio cão – ao longo do curso poderão aprender a treiná-lo e no final incluí-lo na sua prática clínica.
A componente equina será igualmente prática e ministrada em contexto real de centro hípico - Centro Hípico da Gondolândia.

A grande quantidade de horas destinadas às componentes práticas tornarão isto viável. Serão criadas dinâmicas pedagógicas diferenciadoras, garantidas por aqueles que também representam a nível nacional e europeu os conhecimentos e as práticas reais e eficazes nas áreas.

Não deixem de visitar o site do Instituto CRIAP onde estão reunidas as informações, incluíndo cronograma, corpo docente entre outros.

27/06/2015

Grupo de investigação em voz falada e cantada

Como alguns podem saber um dos meus temas de interesse e investigação é a voz. Por motivações profissionais e pessoais tenho vindo a desenvolver as minhas investigações na área da voz cantada e falada - patológica ou não. Nesse sentido, e uma vez que tenho vindo a publicar e apresentar resultados nesta área, decidi fazer uma compilação dos trabalhos num website.
Foi, também, uma forma de comemorar mais uma etapa na minha vida académica - o meu doutoramento foi aceite e começará em breve!
O website pretende reunir as publicações feitas por mim e pela minha colega de investigação, a Prof. Doutora Susana Vaz Freitas. Para além disso, criamos com frequência artigos que pretendem ser úteis na vida profissional dos profissionais que lidam com a voz. Apresentamos ainda ferramentas e recursos variados. O website está em português e inglês.

Podem visitar em http://voz.pmpterapia.pt


24/04/2015

Gestão de expectativas em prática privada - uma reflexão

É sabido que, pelo menos na cultura portuguesa, quem procura um serviço particular será mais exigente - apesar de não ser verdade para toda a gente. Há muitas variáveis que contam neste jogo que é a saúde privada. Mas foquemo-nos no nosso caso concreto - terapeutas da fala em prática privada.
Há vários motivos para se recorrer a um terapeuta da fala particular: ele é conhecido como um dos melhores na sua zona ou nessa área de intervenção (a segunda menos verdade); a pessoa não tem vaga num serviço público e está ansiosa por ter resposta para si ou para o seu filho; ou porque fica perto da sua zona de residência ou trabalho.
De qualquer forma, este vai ser um serviço pago. Assim, ao contrário de um serviço não pago ou de preço simbólico, as pessoas terão a tendência de aumentar a sua exigência face ao serviço prestado. Isto traduz-se nas expectativas que os clientes estabelecem mesmo antes de virem até nós. Cabe-nos, após a avaliação e não só, recolher, analisar e adequar essas expectativas. Nunca faço previsões - em saúde nunca podemos ter a certeza de nada!
Pior mesmo, é quando nos aparecem clientes que tentam impor objectivos. Considero, como clínico, que os objectivos - sobretudo com crianças - devem ser definidos no pós-avaliação numa reunião com os pais; transmito os resultados, dou o meu parecer e os pais concordam ou até sugerem algumas alterações.

A propósito de um caso, relembro com tristeza uma relação terapeuta-cliente que correu tudo menos bem. Não me esquecerei, nunca, de um casal de meia idade que tinha um filho no jardim de infância. A sua queixa seria "fala mal e não diz os l's". Feita a avaliação, compreendi que se tratava de um problema bem mais sério que afectava todas as áreas da linguagem e fala bem como o comportamento - não estou a falar de autismo mas sim de um grande atraso no desenvolvimento. Os pais ouviram com serenidade e, apesar de não parecerem 100% confortáveis, concordaram com tudo e assim demos início à intervenção. Passados dois meses um deles começou a questionar, sessão após sessão, a ausência de resultados - eu explicava, sessão após sessão, quais tinham sido os resultados. Qual não é meu espanto quando me deparo que, os pais continuavam a querer apenas os sons da fala trabalhados!!! Marquei uma reunião, expliquei e prossegui novamente. Pouco tempo depois a criança deixou de aparecer alegando que estava de férias. Não voltou mais e o pai quis uma reunião. A maldita reunião seria para questionar tudo novamente e para pedir um reembolso - imaginem! Chegou ao cúmulo de comparar o seu filho com uma máquina de lavar que, quando comprada e com defeito, pode ir para a garantia! Foi um "chorrilho" de disparates. Obviamente que não reembolsei ninguém - a criança não é uma máquina de lavar e tudo tinha sido explicado claramente - além do mais o menino tinha faltado inúmeras vezes. Ah, vim a descobrir junto de outros colegas que houve, até, quem quisesse sinalizar a criança - eu não era o primeiro a ter a árdua tarefa de ADEQUAR as expectativas dos pais.
Foi um claro caso de insucesso terapêutico a todos os níveis. Mas é assim que aprendemos e, na minha consciência, agi bem e honrei o meu nome e prática. No meio de tudo tenho imensa pena da criança que não pode ser ajudada como devia!